08 setembro 2014

De Menor atualiza a fábula de João e Maria

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Filme coloca dois irmãos em choque com brutalidade urbana e sugere: lutar contra desigualdade e desamparo é quixotesco, e ainda assim vale a pena…
Por Jose Geraldo Couto, no blog do IMS
Há em De menor um frescor que vem de várias fontes. A mais evidente é o tema candente e atualíssimo – o calvário vicioso dos adolescentes infratores –, mas há outras: a juventude do elenco principal e da própria diretora Caru Alves de Souza, estreante em longa; as locações pouco usuais em Santos, com suas praias, favelas e bairros de classe média; e por fim, mas não menos importante, uma elaboração audiovisual híbrida, na fronteira entre o documentário e a ficção, entre o drama familiar e o painel social.
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No centro da trama, dois irmãos: Helena (Rita Batata), advogada recém-formada, e Caio (Giovanni Gallo), adolescente que flerta com a delinquência. O filme os apresenta inicialmente como um par de jovens cúmplices, numa convivência quase erótica, como um casal de namorados. Demora um pouco para percebermos que se trata de dois irmãos que ficaram órfãos há pouco tempo.
Perdidos na selva urbana
Dois meninos meio perdidos, como João e Maria, numa floresta ameaçadora, a cidade fraturada pelas contradições sociais, culturais, morais. É da fragilidade desse par que o filme extrai a sua força.
Helena parece imatura demais para enfrentar o cipoal de leis e artimanhas da Justiça, numa sociedade que empurra os meninos pobres para o desamparo e o crime. Também Caio parece demasiado vulnerável aos apelos do consumo e à necessidade de autoafirmação juvenil que costumam levar a atalhos perigosos. Nesse contexto, sua irmã assume precocemente o papel de mãe protetora.
Os arautos intransigentes da verossimilhança podem objetar que a atriz Rita Batata não convence como defensora pública atuante, por ser pouco mais que uma menina. Mas é justamente essa aparente incongruência que realça duas ideias fortes. Primeiro, a de que só uma garota em início de carreira poderia ter a pureza de intenções e a disponibilidade de energia necessárias para entregar-se de corpo e alma à causa de seus pivetes. Segundo, a de que seu empenho é uma luta quixotesca contra um mundo bruto, impermeável ao afeto.
Drama individual e tragédia coletiva
A articulação entre o drama íntimo dos dois protagonistas com o quadro social mais amplo é o grande trunfo do filme. Seu recurso visual mais eficaz é a câmera na mão que perscruta em longos planos contínuos um espaço cheio de significados. Dois exemplos: o longo plano sem cortes que acompanha a chegada de Helena à sua casa e a exploração de vários aposentos; o percurso da protagonista por um labirinto de casas, barracos, lajes e puxadinhos numa favela paulistana, à procura da mãe de um menor infrator.

No primeiro caso, há um mergulho na vida íntima da personagem; no segundo, a descida ao formigueiro humano de onde brotam seus pequenos clientes. O drama individual e a tragédia coletiva, ambos investigados com o mesmo interesse e a mesma honestidade do olhar.
Mas há também uma sutil orquestração dos olhares nas audiências no tribunal: advogada, promotor, juiz, acusado e vítima, cada um com seus medos e desejos, seus fantasmas e demônios. A câmera de Jacob Solitrenick (e a montagem de Willem Dias) dá a cada um o mesmo espaço, a mesma espessura, a mesma dignidade. Nada a ver, aqui, com o simplismo maniqueísta dos filmes americanos de tribunal.
Cabe destacar, por fim, a ótima trilha sonora de Tatá Aeroplano, alternando pulsação e lirismo, e a coesão do elenco, que vai de atores tarimbados como Caco Ciocler (no papel de um juiz de menores) a meninos que parecem saídos da Febem, ou melhor, da Fundação Casa, que, como o filme deixa claro, é um eufemismo para penitenciária de crianças e adolescentes.
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