
Qual deveria ser o papel do ensino superior de Agricultura, num mundo que enfrenta fome e crise socioambiental planetária?
Por Luciana Jacob | Fotografia: Jorge Luiz Campos
Como instituição social que é, a universidade expressa a estrutura e o
modo de funcionamento da sociedade, em suas atividades de ensino,
pesquisa e extensão e em sua gestão. Assim, tal qual a sociedade, a
universidade é constituída não só por diferentes visões de mundo, como
principalmente por visões conflitantes: a produção de conhecimento e sua
incorporação nos currículos universitários são processos atravessados
por relações de poder.
A articulação dos conhecimentos existentes com o sistema econômico
vigente orienta a formação de profissionais para as demandas explícitas
do mercado. Isto fica evidente nas formas curriculares, na escolha de
quais conhecimentos devem fazer parte da formação e tornar-se objetos de
pesquisa e, principalmente, nas ausências que denunciam o descaso
legado a projetos contra-hegemônicos. As atividades universitárias foram
atingidas por forças que amplificaram sua condição de dependência à
globalização neoliberal, afastando-se das demandas sociais necessárias
para um projeto democrático de país. Elas têm se aproximado do mundo
empresarial, relegando a segundo plano o interesse público.
Social e historicamente construídos, os saberes produzidos pela
universidade são eleitos por determinados grupos sociais como legítimos,
credíveis e merecedores de serem reproduzidos a determinados grupos
sociais.
Que saberes e grupos sociais são incluídos e quais são excluídos da
universidade e, em decorrência, quais divisões sociais são produzidas e
reforçadas? Qual o significado da ausência de determinados saberes na
universidade? É um silêncio genuíno ou fruto de um silenciamento, ou
seja, de uma imposição epistemológica?
A degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço da
desigualdade e da pobreza são sinais muito graves da crise do mundo
globalizado. Na agricultura, assistimos à perda da soberania alimentar, à
fome, à violência no campo, à perda de diversidade genética e dos
solos, ao avanço da concentração de terras, ao desmatamento, ao
envenenamento por agrotóxicos. Paralelamente, temos assistido a uma
ofensiva aterradora de setores conservadores do Congresso Nacional sobre
os direitos fundamentais de indígenas, contra o Código Florestal e a
Lei de Biossegurança. Presenciamos a aprovação indiscriminada de
transgênicos, sem os estudos necessários e a devida responsabilidade
social e científica.
De modo predominante, a universidade contribui para a manutenção
do paradigma hegemônico, formando pessoas aptas a lhe dar continuidade e
produzir conhecimento que alimenta e fortalece seus preceitos. Na área
de Ciências Agrárias, as atividades acadêmicas geralmente se articulam
em torno do paradigma do agronegócio como cânone de desenvolvimento do
país. E, como sabemos, a razão que permeia o agronegócio tem como
características o capitalismo e a globalização neoliberal; a total
dependência de insumos finitos e externos ao sistema agrícola; a
simplificação genética; a concentração de terras e riquezas; entre
outros – aspectos completamente avessos à sustentabilidade
socioambiental.
A organização das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento
(UNCTAD) divulgou recentemente o Relatório de 2013 sobre Comércio e Meio
Ambiente, intitulado “Acorde antes que seja tarde demais: torne a
agricultura verdadeiramente sustentável agora para a segurança alimentar
em um clima em mudança” (em tradução livre do inglês). O relatório,
para além de alertar sobre os danos do paradigma hegemônico de produção
agrícola, aponta a adoção da agroecologia como fundamental para evitar o
agravamento da crise socioambiental e prováveis crises alimentares
futuras – exatamente o oposto do que vem sendo desenvolvido pela grande
parte das universidades brasileiras.
A construção de uma racionalidade ambiental para o enfrentamento
destes problemas – em oposição à racionalidade econômica – exige a
elaboração de novos saberes e, principalmente, a participação dos grupos
historicamente silenciados e que mais sofrem as consequências nefastas
da crise da modernidade na construção destes saberes. No espaço da
universidade, isto implica a internalização das discussões
socioambientais nas atividades de ensino e pesquisa, a abertura do
diálogo com outras formas de saber e o repensar do papel da extensão
universitária na perspectiva que Boaventura de Sousa Santos chama de
ecologia de saberes.
Assento esta ideia em três pressupostos. A abundância de conhecimento
no mundo é muito superior ao o conhecimento disponível em um currículo
de determinada área. Além disso, a escolha de quais conhecimentos são
legítimos e válidos é feita pelos grupos sociais dominantes e que assim o
são pois historicamente oprimiram os grupos sociais hoje excluídos. Por
fim, esta relação de poder guarda em si a força da hierarquização: os
saberes que não passam nesse crivo são considerados alternativos,
lendas, crenças, locais, ou seja, são descredibilizados.
Como avançar na construção de conhecimento socioambiental destinado à
transformação social, quando a cultura e os saberes de camponeses e
camponesas foram marginalizados e deslegitimados? Como dissolver o muro
que tem separado a universidade das lutas sociais de modo geral e,
especificamente, da agroecologia e soberania alimentar?
Proponho três alternativas que, se não completas e definitivas, se configuram como desafios para estas transformações.
Primeiro: mudanças nas prioridades da universidade – o que, como e
para quem pesquisar e ensinar – não se operam de forma desconectada das
estruturas sociais. Embora possa ser espaço de resistência,
questionamento e promoção de transformação social, a universidade é
sobretudo reprodutora de paradigmas mais amplos e funciona de acordo com
dinâmicas sociais que por vezes a transcendem. Assim, não há
possibilidade de se construir conhecimento contra-hegemônico de forma
descolada dos grupos que mais sofrem as violências do conhecimento
hegemônico nem à revelia de outros setores da sociedade. Há a
necessidade de se avançar para uma ecologia de saberes que, segundo
Boaventura, é o confrontamento da monocultura do saber e do rigor
científico pela identificação de outros saberes e de outros critérios de
rigor que operam credivelmente em práticas sociais.
O segundo é que as mudanças não podem ser implementadas apenas por
alguns, mas é pela força de alguns poucos que elas ganharão projeção
institucional. Sua promoção faz sentido em contextos específicos, com
lutas conectadas com a história de cada instituição, apesar de
fortalecerem e serem fortalecidas por lutas mais amplas, de outros
grupos sociais, de outros lugares, de outros movimentos, de outras
escalas e outras identidades culturais – ou seja, inserida em uma
globalização contra-hegemônica.
O terceiro é que não há possibilidade de se pensar a inclusão de
saberes socioambientais na universidade sem que isto seja tratado em
termos epistemológicos e metodológicos. Epistemológicos porque promover o
debate sobre sustentabilidade na universidade requer uma ecologia de
saberes que luta contra a injustiça cognitiva. E metodológicos, uma vez
que a inserção deste saber, pela sua própria complexidade, está
imbricado também no questionamento crítico acerca dos métodos e
estruturas em que se pauta atualmente o ensino superior.
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